O nada. Tudo que ele sentia era o nada
no seu âmago, sua vida. Era difícil perceber que vivia pelos outros,
vivia para tentar fazer com que as pessoas ao se redor sejam felizes e
lhe vissem como um alguém, como um pobre jovem solitário cuja cada
lágrima caída representava uma decepção, uma descoberta que não havia
ninguém para ele chamar de porto seguro, não haveria alguém ali, pronto
para lhe abraçar quando este sofresse e disposto a acompanhá-lo na
jornada contra todos os problemas.
Ele olhava para o grupo com quem andava, rapazes e moças felizes que lhe notavam, claro, falavam com ele, o incluíam, prestavam atenção no que ele tinha pra falar e riam de suas raras piadas. Porém, nada passava disso. Eram secos, rasos, não percebiam que ele sofria e que ansiava por uma mão amiga, um semblante de compreensão. Não percebiam porque, para eles, o garoto não era nada além de uma simples distração, era bom quando estava ali e não fazia falta quando não estava, era uma peça descartável, uma folha de papel que poderia ser levada pelo vento sem fazer falta. Haveriam outros para substituir, os distrair.
Como era penoso sentir o nada.
Ele chegava em casa e a mãe levantava os olhos inchados, e sem qualquer mostra de boa recepção, ela virava as costas e caminhava com passos pesados até a cozinha, esquentava a comida de dias atrás e largava na mesa, arrastando-se de volta ao seu quarto, apática como sempre e completamente desmerecedora de qualquer sentimento de pena. Ela também não se importava, o filho fora um erro, um descuido. Garoto estranho, melancólico. Talvez tenha vindo só para botá-la em penintência, e ela não merecia aquilo.
Ele olhava para o grupo com quem andava, rapazes e moças felizes que lhe notavam, claro, falavam com ele, o incluíam, prestavam atenção no que ele tinha pra falar e riam de suas raras piadas. Porém, nada passava disso. Eram secos, rasos, não percebiam que ele sofria e que ansiava por uma mão amiga, um semblante de compreensão. Não percebiam porque, para eles, o garoto não era nada além de uma simples distração, era bom quando estava ali e não fazia falta quando não estava, era uma peça descartável, uma folha de papel que poderia ser levada pelo vento sem fazer falta. Haveriam outros para substituir, os distrair.
Como era penoso sentir o nada.
Ele chegava em casa e a mãe levantava os olhos inchados, e sem qualquer mostra de boa recepção, ela virava as costas e caminhava com passos pesados até a cozinha, esquentava a comida de dias atrás e largava na mesa, arrastando-se de volta ao seu quarto, apática como sempre e completamente desmerecedora de qualquer sentimento de pena. Ela também não se importava, o filho fora um erro, um descuido. Garoto estranho, melancólico. Talvez tenha vindo só para botá-la em penintência, e ela não merecia aquilo.
O pai chegava tarde, exausto de sua
jornada, encontrava o filho largado no chão da sala, papeis amontoados,
repletos de rascunhos e desenhos que ele não se dava o esforço de tentar
entender. Sua expressão enrijecia, lembrava-se de quando tinha a idade
do garoto, era vívido, boêmio, saía com os amigos, embebedava-se e
pegava prostitutas de esquinas em antigos puteiros, muitos comuns nos
anos dourados. Por poucos segundos ele se deliciava com aquelas
lembranças e então voltava à realidade, olhava com desagrado para o
filho que lhe decepcionava e ia para o quarto, aonde a mulher o
aguardava, o único a quem ela realmente amava.
O jovem erguia os olhos de seus contos de anti-herois, de amores viciosos e sentimentos sujos, a mãe gemia alto e o pai a chamava de nomes depreciativos, sabendo que a mesma gostava. Eles eram asquerosos, pobres de alma e imundos de mente e consciência. Que apodreçam com a vida que levam, que sejam castigados por seus erros, por seus descuidos e negligência. Podiam morrer, não lhe fariam falta, lhe fariam um bem.
E ele ia dormir, ansioso pelo raiar do sol, pelo horário que a campa do colégio tocaria e ele se reuniria com seu grupo, pseudo-amigos que lhe cumprimentavam sem um olhar sincero de companheirismo. Porém, ele os aceitava, pois eram o melhor que tinha, até o momento que o vazio lhe envolveu e o fez perceber. O nada era melhor do que falsidade e descaso. Para o que exatamente ele vivia? Ninguém se importaria com suas vitórias, suas escolhas, ninguém se importava com sua vida.
Ele não era ninguém.
O jovem erguia os olhos de seus contos de anti-herois, de amores viciosos e sentimentos sujos, a mãe gemia alto e o pai a chamava de nomes depreciativos, sabendo que a mesma gostava. Eles eram asquerosos, pobres de alma e imundos de mente e consciência. Que apodreçam com a vida que levam, que sejam castigados por seus erros, por seus descuidos e negligência. Podiam morrer, não lhe fariam falta, lhe fariam um bem.
E ele ia dormir, ansioso pelo raiar do sol, pelo horário que a campa do colégio tocaria e ele se reuniria com seu grupo, pseudo-amigos que lhe cumprimentavam sem um olhar sincero de companheirismo. Porém, ele os aceitava, pois eram o melhor que tinha, até o momento que o vazio lhe envolveu e o fez perceber. O nada era melhor do que falsidade e descaso. Para o que exatamente ele vivia? Ninguém se importaria com suas vitórias, suas escolhas, ninguém se importava com sua vida.
Ele não era ninguém.
E após mais um dia de convivência com
todas aquelas pessoas, ele desabou. Seus colegas pareciam cada vez mais
propícios a não lhe darem atenção, assim como os pais que estampavam
claramente sua repulsa pelo filho, que mais parecia um animal digno de
sacrifício.
Trancou-se no quarto, fitou-se no espelho, um jovem com olheiras, cabelos sebosos, rosto pálido e corpo magro, o retrato do vazio, retrato de anos de uma semi-vida. Ele não era nada, completamente descartável. Não havia motivos para sua vida.
E a epifania de sua existência chegou como uma forte corrente elétrica, intensa e desastrosa. Ele não sentia o nada, ele era o nada. Simplesmente não existia, aquele não era seu lugar. Deveria dar um basta em tudo, seus pais nunca haveriam de lhe querer, seus “amigos” nunca haveriam realmente de se importar.
Uma última folha, um último texto. Últimos pensamentos. E desta não teve personagens criados, enredos imaginados. Ele era o personagem central, fora seu último anti-heroi, tão digno de pena quanto de desprezo, pois deixara claro o que faria após descansar a caneta.
“Sou um nada”
Terminando assim, dobrou a folha e depositou-a na mesa da cozinha, esperando que a mãe lesse e soubesse o quanto era falha na mais bela das ocupações.
O sangue foi derramado, a última e desesperada tentativa de fazer-se notar foi feita. A folha largada na mesa foi lida e desprezada.
Afinal, ninguém se importava com o nada.
Trancou-se no quarto, fitou-se no espelho, um jovem com olheiras, cabelos sebosos, rosto pálido e corpo magro, o retrato do vazio, retrato de anos de uma semi-vida. Ele não era nada, completamente descartável. Não havia motivos para sua vida.
E a epifania de sua existência chegou como uma forte corrente elétrica, intensa e desastrosa. Ele não sentia o nada, ele era o nada. Simplesmente não existia, aquele não era seu lugar. Deveria dar um basta em tudo, seus pais nunca haveriam de lhe querer, seus “amigos” nunca haveriam realmente de se importar.
Uma última folha, um último texto. Últimos pensamentos. E desta não teve personagens criados, enredos imaginados. Ele era o personagem central, fora seu último anti-heroi, tão digno de pena quanto de desprezo, pois deixara claro o que faria após descansar a caneta.
“Sou um nada”
Terminando assim, dobrou a folha e depositou-a na mesa da cozinha, esperando que a mãe lesse e soubesse o quanto era falha na mais bela das ocupações.
O sangue foi derramado, a última e desesperada tentativa de fazer-se notar foi feita. A folha largada na mesa foi lida e desprezada.
Afinal, ninguém se importava com o nada.

